Silva Jardim

 

Silva Jardim e a Aplicação Piloto

Escolhemos Silva Jardim, no estado do Rio de Janeiro para sediar o piloto da aplicação em função de estar economicamente estagnado e por ter criado a Secretaria de Turismo em 2002, formalizando sua vocação turística.

Já em 2003, os empreendedores locais haviam realizado o PET- SEBRAE e entre outras metas, decidiram que o município tinha estrutura e atrativos para o desenvolvimento de 3 Circuitos Turísticos - Aldeia Velha, Bananeiras e Reservas Naturais. Organizados, formataram seus circuitos e deram início à divulgação de seus atrativos.

entrada de SJ na br 101
Entrada para Silva Jardim na BR 101

Após apresentarmos o projeto aos Secretários do município e recebermos aprovação, nos foi enviada uma carta do Prefeito, datada de janeiro de 2004, informando que recursos estavam destinados para início imediato do projeto.

Entretanto, como os atores sociais do município não conseguiram ver os recursos liberados, o grupo do Circuito Turístico Ecorural Reservas Naturais precisando potencializar seu crescimento, adiantou-se e ofereceu-nos uma parceria para darmos início à Aplicação. A equipe FATOR BRASIS, então, redesenhou a área geográfica de atuação (que ficou circunscrita a alguns bairros) e decidiu-se que o piloto seria aplicado entre maio e agosto de 2005.

logotipo do circuito reservas naturais
Logotipo do Circuito Reservas Naturais

Silva Jardim está economicamente estagnado há, pelo menos, quatro décadas. Tem aproximadamente 20.000 habitantes e 956km2. É um município, como tantos outros do Rio de Janeiro, que assistiu ao fechamento de suas últimas e poucas indústrias nos anos 90. A produção rural, que já foi intensa, continua decrescendo. Os jovens do lugar, por volta dos 16 anos, saem em busca de trabalho nas cidades vizinhas e normalmente não voltam.

São poucas as iniciativas para o incremento da atividade econômica, e entre elas se destacam os esforços de empreendedores locais no sentido de firmar a vocação turística do município.

  

  

O Circuito Reservas Naturais

Hoje, no Estado do Rio de Janeiro, só o Sebrae-RJ e a Abraturr-RJ estão envolvidos na formatação e/ou fortalecimento de mais de 20 circuitos turísticos, sendo o "Ponte Branca" e o "Tere-Fri", ambos de Nova Friburgo, os mais conhecidos.

mapa dos 4 bairros trabalhados de sj
Mapa dos 4 bairros que compõem o Circuito identificando cada um de seus integrantes

O Circuito Reservas Naturais ainda não tem tradição turística. Formado há apenas dois anos, conta atualmente com 22 integrantes e compreende 4 bairros - Imbaú, Boqueirão, Mato Alto e Coqueiro. Os quase cinco mil habitantes destes bairros formam uma comunidade desencantada, em que é comum ouvir-se que "não existe cultura a ser resgatada" e que "não há como desenvolver a região".

mico leão dourado de Silva Jardim
Mico Leão Dourado da região (foto de Luciano Landisani)

Os atrativos principais deste circuito, segundo seus próprios integrantes, são as Reservas Privadas de Patrimônio Natural - RPPNs locais; a presença do Mico Leão Dourado, que pode ser visto nas matas da região; algum artesanato; a visitação aos mini-bois e a degustação de pratos à base de camarões e peixes e, nas lanchonetes, empadinhas de rã e pão com excelente lingüiça de fabricação artesanal.

A vocação do turismo local é preservacionista, sendo o seu diferencial, as 4 RPPNs e os projetos nelas existentes: o projeto de Recuperação de Nascentes de Rio (Fazenda União), o projeto de Recuperação da Mata Atlântica (Santa Fé) e o projeto Aprendiz de Fazendeiro (Fazenda Santo Antônio), de educação ambiental para crianças.

piscinas naturais de criação de camarão
Piscinas naturais de criação de camarão 

  

  

A Aplicação da Metodologia

A colaboração dos integrantes do circuito foi essencial para a realização da Aplicação em três meses. Capacitamos os atores sociais envolvidos por meio de oficinas, entrevistamos 76 detentores do saber cultural local, resgatamos os mais expressivos temas da história e a cultura local e elaboramos os produtos finais após validação local de seu conteúdo.

Integrantes do Circuito em momento de Oficina
Integrantes do Circuito durante as Oficinas do FATOR BRASIS

O trabalho realizado durante as oficinas, entre outras coisas, permitiu aos integrantes do Circuito um conhecimento aprofundado na realidade local. Eles se apropriaram da linguagem "cultura e desenvolvimento" e passaram a articular os números do circuito e do município.

Outro momento  da oficina foi testar a ferramenta INDICADOR de Desenvolvimento a partir da CULTURA no território trabalhado. O FATOR BRASIS, após estudar os Indicadores de Desenvolvimento Ethos e o material sobre cultura produzido pela UNESCO nos últimos anos, criou um indicador de impacto e desenvolvimento a partir da cultura. Trata-se de um questionário matriz destinado a fornecer os subsídios para a obtenção do ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO LOCAL. Este índice, que varia do máximo ao mínimo de 1 a 0, foi de 0,28 no circuito trabalhado. E seus integrantes  consideraram adequado este baixo índice, uma vez que quase nada tem sido feito na região para a valorização das singularidades locais e nem para a geração de renda e emprego a partir da cultura. Se esta não fosse apenas uma Aplicação-Teste, após identificado o índice, os atores sociais locais estabeleceriam uma meta de crescimento, de melhora de índice, por exemplo, "a meta de 0,50 até 2010."

Ao final das oficinas, o grupo analisou e refletiu sobre as possibilidades de desenvolvimento a partir da cultura local e elaborou o Programa de Desenvolvimento do Circuito Reservas Naturais a partir da Cultura.

entrevista com moradores de Mato Alto
Entrevista no Bairro do Mato Alto

Os estudos realizados durante as oficinas sugerem que, a partir de agora, não haverá mais ação, planejamento ou programa criado pelo Circuito que deixe de considerar a elevação do Índice de Desenvolvimento Local, ou, em outras palavras, a diminuição da desigualdade social pelo desenvolvimento e a geração de renda a partir da cultura.

  

  

Os Primeiros Resultados

Terminada a aplicação da metodologia, os produtos finais são direcionados a seus devidos públicos:
- a Cartilha é distribuída nas escolas locais, entidades públicas ligadas à cultura, educação e turismo e entre os cidadãos locais;
- o Vídeo além de ser exibido em praça pública na festividade de encerramento do projeto, é entregue ao Circuito Recursos Naturais e à Prefeitura;
- o Relatório de atividades é entregue aos 22 integrantes do Circuito Recursos Naturais, pois, além do Programa de Desenvolvimento, traz todas as análises e reflexões do grupo sobre o próprio Circuito e sobre a localidade durante as discussões nas Oficinas.

Como o FATOR BRASIS tem compromisso com o desenvolvimento humano e social sustentável na localidade em que suas ferramentas são aplicadas, a entrega dos "produtos finais" ainda não pode ser considerada como resultado para a transformação social desejada no Circuito.

entrevista com moradores do Boqueirão
Entrevista no Bairro Boqueirão 

Os primeiros resultados foram, na verdade, a mudança de paradigma que a leitura da Cartilha provocou nos integrantes do Circuito. Antes da aplicação da metodologia alegava-se que "não havia cultura a ser resgatada", "não havia como gerar desenvolvimento e renda na região a partir da cultura", "não havia como potencializar o circuito turístico a não ser com novos recursos financeiros". Agora, as características culturais locais podem ser vistas como novos insumos, motivo de novos arranjos, possibilitando novas articulações, enfim, um novo estímulo ao crescimento do Circuito Recursos Naturais.

Entre inúmeras análises que podem ser realizadas a partir da leitura da Cartilha, vamos aqui, apenas mencionar as mais evidentes:
. A vocação do Circuito foi confirmada como preservacionista, entretanto, agora facilmente nominada, apropriada e potencializada. E para a surpresa de todos, uma nova visão desta vocação veio ampliar o horizonte do preservacionismo local.
. Os integrantes do Circuito passaram a pensar o desenvolvimento do eixo preservacionista em três direções: projetos de preservação dentro do Circuito, como por exemplo a recriação de microclima na Fazenda União; projetos de preservação que atravessam o Circuito, como o corredor ecológico Sambê-Barbosão-Santa Fé e, projetos de agronegócios sustentáveis, como a produção de camarões e o artesanato com folhas de bananeira.
. Descobriu-se também o interesse de iniciar uma mobilização local para estimular o desenvolvimento de novos projetos preservacionistas e sustentáveis na região e para incentivar que, em havendo terras a vender na região, elas sejam adquiridas por empresas ou pessoas interessadas em fortalecer a vocação turística do local.

artesanato mato alo entalhos e decoração com madeira camará
Artesanato do Mato Alto

Com relação à cultura local, não iremos mais escutar desanimadas frases expressando a inexistência de riqueza cultural. A comunidade passou a reconhecer um amplo leque de características culturais no Circuito. Além da diversidade em agronegócios, o Circuito tomou conhecimento de mais de 30 histórias de engenhos e casas de farinha, assim como de mais de 25 cidadãos que se dedicam ao artesanato (trabalhos decorativos com madeira camará, folha de bananeira, papel machê; trabalhos com motivos do Mico Leão Dourado; peças como chicotes, cintos), entre os quais no mínimo quatro já contando com reconhecimento regional.

Pode-se falar também das 5 marcenarias, algumas com mais de 10 anos, entre elas algumas que produzem móveis artesanais de altíssima qualidade.

Há motivos para exaltar a riqueza do imaginário local, desde a frase dos antigos "Este chão está sob um tapete de pedras semipreciosas" até as 15 histórias, entre causos e lendas, como "Nhangussu - capeta ou mãe do ouro", "A garupa do além", "A visita do escravo" e "A mulher de branco".

Na culinária rural local foi o uso constante da alfavaca, tempero que dá sabor especial a carnes, aves e peixes, e pode ser utilizado também em legumes e verduras, que mais nos chamou a atenção. É certo que o uso da alfavaca não é uma exclusividade de Silva Jardim, mas uma vez que existem, pelo menos, 8 pratos baseados na alfavaca e não em outros temperos, não se pode negar que trata-se de uma das características da culinária local. Está presente em dias de festa ou no cotidiano, na galinha, no porco, no peixe, no carne bovina e até na mistura sem proteína.

Entre as expressões artísticas, encontramos apenas manifestações literárias: poemas, crônicas e livros com algum tratamento literário e qualidade, de autores já conhecidos da região, como Alberto Xavier de Moura, Evaldo Holf Becker, Antonio Flores, Teobaldo Miranda, Affonso Pardal Filho, Heloisa Helena Jardim Moura, etc.

Nos relatos também apareceram curiosas árvores locais - como a que toca, a que chora, a dá a mãozinha - que podem ser visitadas, entre um e outro roteiro turístico.

Agora está nominada a vocação do Circuito Recursos Naturais e cada cidadão local conhece a cultura local. Esta constatação nos permite sugerir que os integrantes do Circuito estão qualificados para produzir reflexões, ações e programas de desenvolvimento a partir da cultura local.

  
artesanato boqueirão flores de palha
Artesanato do Boqueirão

  

VCL e Programa de Desenvolvimento

É importante mencionar ainda que integrantes do Circuito passaram a ver a cultura local como fonte de desenvolvimento e geração de renda para a comunidade, como demonstra o teste com a ferramenta Programa de Desenvolvimento do Circuito Reservas Naturais a partir da Cultura.

As prioridades para desenvolvimento "identificadas" entre 2006 e 2010 seriam:
· profissionalizar o turismo preservacionista e sustentável;
· potencializar o agronegócio sustentável;
· profissionalizar a produção de móveis, aprimorar e incrementar o artesanato; e
· a produção nas Casas de Farinha e Engenhos (biju, farinha, melado, outros). 

FAzenda União preservacionista SJ
Forte ação preservacionista na Fazenda União, desde 1974

Ao mesmo tempo, pretenderiam fazer parcerias com a UNIGRANRIO local, e ainda com sindicatos, associações e com a Prefeitura, com o objetivo de criar cursos que habilitassem a população a concretizar o programa.

O desafio do Circuito Reservas Naturais seria conseguir colocar esta agenda de mudanças em prática. O FATOR BRASIS poderia apoiar realizando oficinas para os artesãos locais "VCL e Artesanato"; treinando professores da rede escolar para que se apropriem da história e cultura local; aprimorando as habilidades dos escritores locais para que se integrem ao programa; conseguindo parcerias com o Estado, com o Sebrae, com outras Universidades para favorecer a preservação cultural e fortalecer o empreendedorismo local a partir da cultura.

Sabemos que isto é pouco. Para que o processo pudesse tomar forma, seria preciso que os integrantes do Circuito, junto aos protagonistas locais, se mobilizassem e, com (ou sem, caso ela resista) o apoio da iniciativa pública, dessem a partida às ações necessárias para essa transformação social.

movel fabricado pela madeireira do Imbaú
Madeireira do Imbaú

  

  

Conclusão

O Circuito Recursos Naturais é um circuito turístico novo, localizado em uma cidade pequena e pobre. O desafio de conseguir desenvolvimento humano e social sustentável em localidades como esta é enorme. Com certeza um circuito ou município menos desfavorecido pode relacionar valores culturais locais com desenvolvimento de forma muito mais ágil e produtiva. Mas a realidade brasileira está mais próxima de Silva Jardim.

Quantos dos mais de 5.500 municípios tem em seu planejamento anual (ou plurianual) hoje alguma ação bem estruturada para reunir  as informações sobre a história, cultura e singularidades locais; para divulgar esta informação para todos os seus moradores; para favorecer a preservação dos bens materiais e imateriais; para estimular a capacitação e formação de artistas e atores da cultura; para fortalecer os protagonistas locais na direção de gerarem mais emprego e renda a partir da cultura?

Quisemos demonstrar com a realização deste piloto que, sem a IDENTIFICAÇÃO DOS VALORES CULTURAIS LOCAIS (VCL), uma unidade territorial que queira buscar desenvolvimento a partir da cultura irá, em primeiro lugar, desperdiçar ou subutilizar seu potencial cultural - sempre maior e mais rico que nós, os formadores de opinião, acreditamos. Além disso, perderá a oportunidade de promover o desenvolvimento humano da sociedade local e o desenvolvimento sustentável da economia. A atuação participativa, a apropriação dos VCL s aos cidadãos locais, não só aumenta o sentimento de pertencimento como também faz despontar os protagonistas locais que irão alavancar o desenvolvimento econômico.

É por este motivo que se faz essencial praticar, aprofundar e aperfeiçoar metodologias como esta que, resumidamente apresentamos, dando conta da realização do piloto e dos primeiros resultados atingidos - satisfatórios tanto para a equipe FATOR BRASIS como para os integrantes do Circuito.

O objetivo maior do FATOR BRASIS é continuar estabelecendo parcerias, prestando assessorias e acumulando experiências de modo a contribuir para o alargamento e aprimoramento das possibilidades de desenvolvimento humano e social sustentável a partir das culturas locais no Brasil.

artesanato imbau mico leão em graveto e biscui
Artesanato do Imbaú

 

Artigo Completo em anexo.

 

 

 

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